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Era uma tarde como todas as outras: mesma rotina, mesma casa, mesmo jardim e mesma vida. Mariana suspirou ao entrar pela porta de frente do casarão em que vivia, herança que sua avó havia deixado para sua mãe. Era uma construção bem antiga, passada de geração em geração por séculos.

A menina de dezoito anos entrou e deixou sua mochila pesada no balcão de madeira retangular, dirigiu-se até a geladeira e pegou uma jarra de suco de laranja. No armário do lado, alcançou com dificuldade um copo com desenho de fadas. Enfim, sentou-se em uma das seis cadeiras da mesa redonda de vidro que ficava no centro da cozinha de piso de granito. Enquanto bebia vagarosamente, olhava através da janela à sua frente e podia ver o jardim que tanto amava.

Começou a pensar em sua vida, em como tudo era tão estranho e sem graça. Sempre sentiu uma sensação de algo estar faltando, mas nunca soube o que era para completar o vazio que sentia por dentro. Era como se alguma coisa estivesse adormecida dentro de si mesma. Sempre conseguiu controlar esse sentimento, mas nos últimos dias não conseguia parar de pensar nisso. Já não aguentava mais, as semanas passavam e parecia que nada mudava. Se sentia tão sozinha às vezes…

Após perceber seus rotineiros devaneios e dar seu último gole, lavou a louça suja que estava na pia e foi lá fora observar o céu.

Colocou as mãos no bolso da jaqueta de couro acinzentado que usava por cima de uma blusa de manga comprida roxa. Sempre fazia isso quando estava nervosa ou ansiosa. Um vento leve soprou seus fios de cabelo dourado prendidos em uma trança frouxa.

Fechou os olhos por um tempo para sentir aquele agradável perfume das flores de seu jardim colorido. Quando os abriu, viu um garoto de sua idade encostado em uma árvore que dava entrada na floresta, a estava olhando fixamente. Deu um pulo para trás ao vê-lo e fez menção de sair correndo, mas algo nele a deu uma segurança que nunca havia sentido em toda sua vida, com ninguém.

De repente, ele correu para dentro da mata e como um instinto, ela o seguiu. O garoto corria muito rápido enquanto desviava das árvores que tapavam um pouco a iluminação do Sol. Ofegante, Mariana parou e sentou-se em um tronco de árvore cortado. O que tinha dado nela? Com uma atitude tão estúpida daquela tinha ficado perdida.

Como mágica, o desconhecido apareceu sentado ao seu lado e pegou uma das mãos pequenas e quentes da menina. Quase que instantaneamente ela senti um calor percorrê-la e um sentimento familiar lhe preencheu o peito. Já o havia conhecido de outras vidas… Vários rostos apareceram e se fundiram naquele que a estava mirando. Da última vez, ela havia sido uma bela ninfa que habitava aquela floresta encantada e se apaixonou por ele, um elfo. Uma maldição lhe foi jogada, a obrigando a renascer como humana e os separando para sempre.

Porém, o amor verdadeiro consegue suportar tudo e conseguiram encontrar o caminho de volta um para o outro.

– Você partiu, mas eu nunca lhe esqueci… – disse o jovem elfo tocando o rosto dela e a olhando com afeto.

A beijou carinhosamente, um doce e longo beijo de saudade. Ela percebeu o quanto sentiu falta daquilo, mesmo não lembrando de sua verdadeira história até aquele momento. Era como se uma parte bem grande e importante tivesse sido tirada e nada pudesse substituir. Por isso se sentia tão vazia.

Não queriam largar um do outro, por isso se afastaram e deixaram suas testas coladas. Aquele momento poderia se eternizar ali pois a magia os rodeava, fazendo tudo ser possível. Porém o tempo não para.

Daniel com um sorriso, levantou-se e estendeu-lhe a mão.

– Você vai voltar comigo? – perguntou ansioso.

– Para onde?

– Para o lugar de onde você nunca saiu realmente.

Sem nenhum medo ou pesar, ela aceitou e de mãos dadas foram em busca de um futuro juntos onde nada os separaria de novo, pois havia algo maior ali. Algo que ninguém poderia explicar, nem mesmo a criatura mais mágica da Terra.

E a menina nunca mais se sentiu sozinha…

 

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