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Seu nome era Monique Russo, tinha os olhos mais azuis que o mar em calmaria, tinha uma estatura mediana e trabalhava como secretária em um grande escritório no centro da capital de São Paulo. Não era o emprego dos sonhos, mas a ajudava a pagar o curso de Direito que fazia a noite.

Andava com pressa pela calçada da avenida movimentada, tentava não esbarrar em ninguém enquanto carregava sua bolsa e seus livros pesados da faculdade. Estava muito atrasada, o despertador não tinha tocado e por isso acordou meia hora depois. Prometeu a si mesma que iria comprar um outro na hora do almoço.

Por mais que estivesse com pressa, algo a chamou a atenção. Parou de andar.

Era um mendigo que estava sentado encostado na parede de um dos gigantes edificios da cidade. Ele estava rodeado de livros de todos os tamanhos e gostos e várias folhas com escritos estavam espalhadas. Parecia difícil de imaginar que alguém que morasse na rua pudesse ter tantos livros e gostasse tanto de ler. E estava escrevendo. Um mendigo escritor?

A moça olhou para os lados e percebeu que ninguém parecia notá-lo. Resolveu que  iria se atrasar mais um pouquinho ao emprego. Tinha algo nele que estava curiosa para descobrir.

– Olá senhor… – começou a jovem, abaixando-se para olhá-lo.

O homem não levantou a cabeça e continuou escrevendo.

– O que quer? – bravejou, não querendo ser interrompido, o que assustou Monique.

– Só queria perguntar se o senhor gosta de ler tanto assim e o que tanto escreve…

Ao ouvir isso, o morador de rua pausou sua atividade e sorriu. Nunca nenhuma pessoa o havia chamado para conversar. A mirou e ela o achou muito familiar.

Conversaram por um longo período e a contou que havia deixado sua família há muito tempo e que se arrependia amargamente disso. Nunca teve a chance de ver a filha crescer.  E desde então, só conseguia achar calma quando escrevia e lia alguma coisa. Por incrível que parecesse, muitas pessoas jogavam livros no lixo e foi assim que fez sua pequena coleção.

A mulher o olhou com carinho, seu pai a havia deixado assim como sua mãe sem motivos aparentes. Um dia ele simplesmente sumiu. Ainda conseguia se lembrar de quanto sua mãe chorou naquela noite.

– Eu escrevi muito durante todo esse tempo que andei vagando pelas ruas. Acho que até escrevi um livro inteiro… – ficou pensativo e tratou de procurar algumas folhas perdidas no meio de seu único e grande tesouro. – Aqui está.

– Posso ler?

– Fique à vontade. – respondeu gentilmente, ela já tinha ouvido aquela voz tão suave.

Olhou para a primeira folha, que parecia ser uma dedicatória e leu: “Em memória de Monique Russo. Desculpe ter ido embora, minha filha. Agora é muito tarde para consertar meus erros. Saiba que a amo muito. Adeus.”

Terminou de ler e procurou o homem, mas ele já não estava mais lá. Havia somente uma chuva gélida e fina que gelou seu coração.

Como sempre, ninguém havia notado.

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